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Cesar Veneziani em Prosa
 


Parede de Vidro

     A parede de vidro nos separa dos aquários, e neles, isolados de nossos corpos pesados e rastejantes, flutuam na água dos sonhos, pequenos seres de cores e formas sutis, como pensamentos distantes, sonhos abandonados, vontades sufocadas, verdades etéreas...
     A parede de vidro nos separa da chuva na janela, e faz do choro do dia, do choro do tempo, do choro dos céus, a redenção dos nossos choros...
     A parede de vidro nos separa do ar no para brisa do carro, e nos impede de, vento ao rosto, imaginarmos a liberdade, a busca, o novo, o querer...
     A parede de vidro nos separa de nós mesmos, quando, medo de sermos felizes, a erguemos ao nosso redor, em redoma de vergonha, e nos afasta do calor, da música, e nos torna meros observadores de nosso próprio apodrecimento, célula após célula, odor após odor, e convida os vermes ao banquete do reciclar a massa sem serventia...

     (12/03/2010)



Escrito por clvenezi às 18h28
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Nos meus sonhos

    Quando tenho uma dúvida engasgada na garganta, faço uma caminhada buscando a solução. E surgem, sem convite, o sim e o não, a impor limite, por puro comflito. E o mito se materializa: o anjo num ombro e o capeta no outro!
    A confusão se instala. Um fala: "Seja justo, não magoe ninguém!". O outro grita: "Insista, você tem direito também!"
    Eu, no meio dessa discussão, sigo na indecisão. Sento no banco da praça e rio da ameaça de um para com o outro. Fecho os olhos, me ditraio, enquanto a briga se acirra a tal ponto que saio sem ser notado.
    Aliviado, sigo, ainda sem resultado, mas levo leve minha paz, enquanto anjo e demônio, sim e não, bem e mal, lutam, indiferentes, por simples vaidade.
    E eu já fui tarde!!!

    (26/09/2009)



Escrito por clvenezi às 15h49
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Mitologia Nórdica ou Zona Norte

     Frio, vento, ameaça de garoa... A esquina mal iluminada a faz ficar próxima do meio-fio. A roupa curta expõe as poucas carnes quando o sobretudo se abre ao passarem os carros.
     Talvez Valquíria, filha de José da Silva, não de Odin, não demore a entrar em algum carro e ir a algum quarto quente...



Escrito por clvenezi às 13h14
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Duas Visões de uma Oração

     A água morna lava o corpo e refresca a alma: banho lento e restaurador após um dia modorrento de trabalho. Deixo escorrer do alto da cabeça o jato da ducha barata que espalha os fios d´água.
     Não quero pensar na vida sem perspectiva e automatizada; não quero pensar nos amores que sempre partem; não quero pensar em sonhs que nunca se realizam... Por ora, me basta sentir a água morna aquecer meu corpo desde anoitecer de começo de outono.
     Sempre neste momento a fusão entre real e místico se apresenta e, como se a ducha penetrasse em minha cabeça e em minha alma, me vem a necessidade de uma oração a Deus por meus desígnios futuros:

1ª Visão: O Crente Idiota

     Não, hoje não vou orar a Deus, já fiz isso tantas vezes! Se não fui atendido, se minha vida não engrena, não desenrola, é porque Ele deve estar ocupado com casos mais importantees, mais urgentes... Ele já sabe de mim, pra que importuná-Lo com súplicas? Vivo minha vida e aguardo pelo destino que me espera!

2ª Visão: O Descrente Idiota

     Não, hoje não vou orar a Deus... Orar pra que? De nada adianta a oração... Ele não me ouve, não se preocupa comigo. Se é que existe, vai pensar: "de novo esse infeliz me aporrinhando?". Melhor terminar o banho e arranjar algo pra ocupar a cabeça e parar de pensar em bobagem.
     Oração? Hummmmmmm...


(Escrito em 02/05/2009)



Escrito por clvenezi às 12h02
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Anjos

Anjos descem à Terra e convivem conosco o tempo todo.

Como? Não percebeu?

Tire os filtros de hipocrisia, de formalidades, de convenções e deixe seus olhos chegarem à essência. Anjos são inúmeros, nos cercam, fazem de tudo para tomar nossas vidas amenas, plenas, serenas. Nos dão beleza, mas não as da simples forma, a beleza em essência: a tal estética que Benjamin tanto tentou explicar. A beleza da harmonia que não se explica nem em palavras nem em sentidos, mas fundidas em sentimentos.

Um pássaro, uma música, uma rosa, são anjos.

Poetas são anjos!



Escrito por clvenezi às 13h34
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Conclusão óbvia

Só os medíocres são felizes! Pelo menos pensam que são...

Existem pessoas que, por conta de equívocos do destino, se vem brindadas por instantes felizes ou situações agradáveis e buscam eternizá-las, como se momentos ou situações ou qualidades que alguém possa ter fossem congeláveis ou cristalizáveis, tornando-se eternas. Apenas quem tem uma visão estreita das coisas seria capaz de imaginar ou até mesmo chegar a vivenciar tal devaneio.

A felicidade, como sonham os incautos, é a somatória de situações, momentos, qualidades que se sucedem e se complementam, num movimento evolutivo e não uma repetição cíclica de eventos! Como não existem pessoas com todas as qualidades que nos encantam e nem ocorrem eventos e situações ideais a se sucederem de forma linear e complementar, a felicidade é simplesmente uma utopia, ou mais, um engodo, uma mentira, ou mais ainda: impossível!

Portanto, quem, avesso à mediocridade, busca idealizar seu bem-estar, sua sintonia de anseios e aspirações, sua complementaridade de sentimentos, é, necessariamente, alguém solitário e insatisfeito.

A análise está posta: ou tem-se a mediocridade pseudo-feliz ou um ideal irrealizável. A qual conclusão se pode chegar?

Só existe uma conclusão óbvia: a vida é uma merda!!!



Escrito por clvenezi às 15h04
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Embriaguez

Ops! Quase perdi o equilíbrio, mesmo estando ainda com o braço esquerdo em seu ombro. Não tinha me dado conta de como estava!

Me ajeitei na cadeira e tentei me recompor. E agora? Espero que ela não perceba, justo agora que estamos nos entendendo. Como é que pude chegar a esse ponto?

Disfarçando e falando pouco para não me enrolar ainda mais, comecei a reparar em torno: as outras mesas do bar pareciam dançar junto com as pessoas. Fixei meus olhos nela e, por causa do meu estado, pude ver sua aura incrível. Agora entendi o que me fez me encantar tanto: esta luz, esta energia, que ela irradia é explêndida!

Nisto o garçom veio em nossa direção. Sua imagem perecia se distorcer a cada passo, como se eu o visse através de espelhos de parque de diversões. Ele, sem cerimônia, perguntou:

- Mais uma Coca com gelo e limão?

No que eu respondi:

- Sim, por favor!

Na verdade, o que eu queria mesmo é virar mais uma garrafa inteira dos seus beijos...



Escrito por clvenezi às 15h01
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O julgamento

Recebi uma graça divina, um milagre! A mulher dos meus sonhos se fez carne e osso. Imediatamente identifiquei nela tudo o que sempre idealizei. Inteligência, sensibilidade, cultura, classe, charme e até beleza! Cada instante ao seu lado representava uma eternidade de sensações. Por várias vezes me questionei se ela seria real ou se eu, vencido pelos meus sonhos, materializei um ideal. Mas era real, bem real, com beijos e carinhos que me faziam levitar.

Um dia, trágico dia, ela me disse que precisava dar fim a um relacionamento mal resolvido e para tanto iria dar uma chance ao ex-namorado...

Percebi então que cometera o maior dos sacrilégios: recebi um milagre e não utilizei-o! A mulher dos meus sonhos esteve em meus braços e não tive competência para sensibilizar seu coração, para fazê-la me amar... Raras são as pessoas abençoadas por milagres e eu, agraciado, não o tornei efetivo!!!

Admitindo culpa, me entreguei aos tribunais da consciência. No julgamento pedi a mim mesmo a pena máxima! Todos os jurados (Fé, Sensibilidade, Coerência, Misericórdia, Paixão, Fraternidade, Humildade, Paciência, Franqueza, Honestidade, Honra e Compaixão) acataram os meus próprios argumentos de acusação e a decisão foi unânime: CULPADO! A meritíssima senhora juíza, a Razão, leu então a sentença:

"Solidão Perpétua"!!!



Escrito por clvenezi às 15h01
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A flor guerreira

A caminhada que era para tirar o stress, colocar as idéias em ordem, acabou sendo alimentadora de auto-piedade, de melancolia e depressão. Talvez o tempo tenha ajudado: uma garoa fina e fria, aliada a um vento moderado, mas constante serviam de combustível para esta auto-punição infantil.

As ruas arborizadas do bairro passavam despercebidas até que, em frente a uma casa comum, vi um arbusto plenamente florido, de grandes flores cor de pêssego.

O vento se intensificou, os galhos passaram a se curvar e podiam-se sentir as flores desesperadamente sendo agitadas, quase destruídas. No entanto, solitária, bem de frente à direção do vento, uma flor se mantinha firme, sem ceder às energias contrárias. Com suas pétalas largas, mantinha-se em luta contra o vento, ainda que o próprio galho que a sustentava oscilasse temeroso.

Hoje, dias depois do ocorrido, me vejo mais uma vez tentado a ceder à auto-piedade ao ser atingido por chuvas e ventos frios que a solidão teima em criar. Mas busco em mim a flor guerreira dos sentimentos puros para encarar de frente e me manter firme na direção que os objetivos do meu coração designam...



Escrito por clvenezi às 14h59
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Chocolate

- Olha o que te trouxe! Não tive onde embrulhar...

         Abriu a bolsa enquanto falava e me presenteou com um bombom embrulhado num guardanapo de papel. Agradeci e coloquei no bolso da camisa.

Um símbolo, um ícone, às vezes expressa muito mais coisas que um discurso pomposo.

Seu rostinho lindo de menina se iluminou enquanto me dava o bombom. Eu li nele que você gosta muito de mim, de minha companhia; que mesmo longe, se lembra de mim e me traz lembrancinhas; que o docinho é um doce carinho, um doce beijo...

Cheguei em casa, desembrulhei o bombom, comi (delicioso!) e joguei fora o papel que o embrulhava, já que não havia necessidade de guardá-lo para lembrar de um dia incrível e de todo o simbolismo que o bombom representava. A lembrança do seu rostinho de menina que tanto disse, esta sim, está guardada para sempre...



Escrito por clvenezi às 14h59
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Experiência

Experiência...

         Ela só serve para que não cometamos o mesmo erro na vida, mas não nos alerta para que não cometamos erros novos! Deveríamos ser equipados com sensores de erros futuros ou então detectores de sofrimentos à frente... Quem sabe algum cientista consegue desenvolver um novo "chip" que, implantado em nosso bom senso, nos alerte e nos previna contra erros e sofrimentos? Quem sabe não se descobre alguma proteína nova, alguma enzima ou um trecho do DNA que, estimulado, faça o mesmo papel? Assim nasceríamos capazes de nos previnirmos (É assim que se escreve? Deu um branco agora... Cadê a experiência pra me dizer?) e evitar conseqüências...

Ou será que não? A vida sem erros e sofrimentos seria insuportavelmente chata! As máquinas erram, a natureza erra e produz o novo, a idéia, a nova chance! Sem erro e sofrimento cessaria o estímulo e tudo seguiria efetivamente o mesmo rumo, a mesma rotina, a mesma morte... Erro e sofrimento são estímulos à vida!

 

Êta vida besta, meu Deus! (Drumond que me perdoe!)



Escrito por clvenezi às 14h58
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A simplicidade da felicidade

As paisagens paradisíacas se somam, se multiplicam a cada curva da estrada. A cada ângulo uma obra-prima da natureza. Num olhar, uma montanha, noutro uma praia, noutro ilhas, noutro mais ondas arrebentando em rochedos...

Isso tudo servindo de palco a um povo sofrido mas feliz. Conscientes do paraíso que vivem, se divertem ouvindo música, tomando cerveja, comendo uma porção. Uma vida simples, como simples é a felicidade.

Quando se buscam horizontes longínquos e ideais, deixa-se de observar as coisas simples e passa-se uma vida inteira infeliz, ainda que com um padrão que fuja ao simples.

A felicidade não é complicada! Uma praia se faz com bilhões de simples gotas de água e simples grãos de areia...



Escrito por clvenezi às 14h57
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Uma nova visão

Estou usando óculos.

É engraçado dizer isso, que para muitos é um fato, mas para mim é absoluta novidade! Tenho amigos que dizem que os óculos já são parte integrante dos seus corpos, como um dedo ou uma orelha, mas para mim não. Aos quase 48 anos me “vejo” tendo que ceder ao tempo e, por extensão, às condições que ele impõe ao meu corpo.

Enxergar bem é o prêmio ao incômodo de ter que carregar esta pequena peça, este adereço, conosco. Surpreende até a clareza das coisas, os limites não mais nevoentos, as cores mais vivas e vibrantes. Agora vejo um mundo mais definido, repleto de detalhes e infinitamente mais lindo!

Da mesma maneira minha visão interior está mudando, amparada nos óculos da experiência... Agora enxergo claramente o que quero e o que não quero em minha vida. Consigo delimitar até onde posso ceder e até onde posso ir sem medo de ultrapassar os limites. Tenho a clara visão de que tipo de pessoas quero me cercar e quais as qualidades devo exigir. São agora nítidas as imagens do que espero de mim mesmo, o que devo fazer, o que devo estudar, o que devo apreciar...

Os caminhos estão todos abertos à frente! Hoje não sou mais levado pela correnteza da cegueira da alma porque posso encontrar as pontes e, através delas, atravessar o fluxo da mediocridade e seguir os caminhos corretos em busca da felicidade!!!



Escrito por clvenezi às 14h56
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Um anjo

O trânsito parou. No rádio nada que me fizesse interagir com o volante e o painel transformando-os numa bateria e eu componente de uma banda em pleno show. Olho ao redor. O tempo fechado numa primavera com cara de inverno e temperatura ainda indecisa se esquenta ou se esfria. Os carros todos povoados por estátuas vivas e disformes. No entanto, bem ao lado (como não tinha reparado antes?) uma van de transporte escolar com apenas uma criança. Uma menininha com uns 5 ou 6 anos, longos cabelos cacheados castanho-claros, um rostinho moreno, redondo, moldado por uma ligeira obesidade que, na infância, faz um belo efeito estético. Linda, eu resumiria sem rodeios! Ela fixa o olhar em mim, eu nela. Foram décimos de segundo que me fizeram abrir um sorriso da alma. Ela também sorriu, abrindo as janelas de um mundo doce e encantador! Ainda mais, ela debruçou-se na janela da van e apoiou o queixinho nas mãos. Fiz o mesmo apoiando no volante. Ela abriu mais um sorriso, intenso e encantador.

O sinal, lá na frente, abriu e o trânsito seguiu... Me mantive ao seu lado trocando olhares, sorrisos e fazendo trejeitos como se fosse coleguinha de jardim da infância. O trânsito, ainda confuso mas andando, me fez mudar de faixa e ficar imediatamente atrás da van escolar. Olhei pra dentro e a vi me procurando. Eu não estava mais ao seu lado. Então ela se vira para trás e com um sorriso lindo me “disse”: ah, te encontrei!!! Nossa conversa por sorrisos foi longa e cheia de conteúdo...

O trânsito seguiu e agora quem mudou de faixa foi a van, no entanto ela continuou me seguindo sem tirar os olhos. Novamente parados, desta vez eu à esquerda da van e ligeiramente à frente, me voltei para trás para mais uma vez me encantar com seu sorriso. Como é linda, pura e completa a infância! Como pode o sorriso de uma criança transmitir tanta energia, tanta emoção? Como é possível criarmos um vínculo tão forte e intenso com a pureza e a beleza em essência?

Mais uma vez o trânsito seguiu. Percebi que minha faixa de rolamento iria parar mas não tive oportunidade de mudar de faixa. A van me ultrapassou e pude apenas ver aquela doce criatura se erguer do banco e, acenando a mãozinha, me dizer adeus! Retribui de imediato e ainda pude ver um último sorriso iluminar o dia cinzento.

A van dobrou a esquina. Segui em frente ainda extasiado com a visão daquele anjo. Os anjos existem, ainda que não queiramos vê-los...

Há sim esperança, beleza e razão para a vida... Apesar das injustiças, dos enganos, das inseguranças, dos medos e das ansiedades, o sol ainda brilha, as flores ainda nos dão cores e odores, a lua ainda nos faz sonhar...



Escrito por clvenezi às 14h55
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